-- Fidel foi, sim, muito bom para a Ilha. Veja o sistema de saúde. O melhor do mundo! Até erradicou o analfabetismo.
-- Ah, hahahahaha. Os analfabetos eram inimigos do regime, foram todos para o paredão.
--Ora veja! Fidel realizou a Utopia do Comunismo na ilha, mulher - disse o tio em mais um dos seus inconciliáveis e inconcludentes debates com a irmã.
E a menina, percebendo o deleite com que seu tio pronunciara a palavra Utopia, apaixonou-se. Esperta, logo teve a idéia de pôr numa cartinha a Papai Noel, como seu pedido de Natal, aquela palavra gostosa que o tio repetia com tanto entusiasmo. Algo de muito bom deveria ser.
A mãe da menina, como a maioria dos adultos, tinha na cabeça a desidéia de Papai Noel e , por isso, em todo fim de ano, violava as cartinhas de seus filhos.
E Muito preocupada, chamou sua filha pra conversar:
-- Olhe, meu amor, eu li sua cartinha pra Papai Noel.
-- Gostou mamãe? Eu vou ganhar o que pedi, né?
-- Amorzinho, er... peça outra coisa... porque Utopia não vai dar.
-- Como não, mamãe? Papai Noel não realiza sempre o que as crianças comportadas pedem?
-- É, minha filha. Só que Utopia é...
-- Deve ser uma coisa muito gostosa, mamãe, ou muito legal de brincar. Eu não sei bem o que é, mas eu quero. O titio fala tão bem...
-- Sim, Utopia é uma coisa muito boa. Mas, assim, é uma coisa muito difícil de se conseguir. Ninguém no mundo teve uma Utopia, querida.
--Nem o Papai Noel?
--É, querida, nem o Papai Noel.
-- Então o que é isso, mãe? Pra que serve? - atônita e ainda mais ansiosa
-- Meu amor, Utopia é uma coisa que fica lá na frente, que a gente nunca alcança, que a gente só imagina, que a gente nunca pegou e nunca vai pegar.
-- E pra que serve uma coisa que ninguém nunca vai ter?
-- Serve, assim, pra que a gente caminhe. A gente vai caminhando em direção à Utopia, tropeçando aqui, caindo ali, levantando, aprendendo sobre a estrada. A gente ganha muita coisa boa no caminho.
-- Hum... - desanimada, mas ainda desejando o presente.
-- Utopia, minha filha, serve pra o homem andar, porque sem Utopia ele desanda.
*****************
Não sei muito bem até que ponto essa história é verdadeira. Não sei quais partes ouvi da menina, quais sonhei, quais inventei pra adocicar o texto.
Sei que hoje a menina é ministra do Supremo Tribunal Federal.
E eu sou mais utopista hoje do que ontem.
sábado, 27 de setembro de 2008
terça-feira, 9 de setembro de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
Sinto Muito
Não tenho sonhos. Tenho, desejos, vontades. Às vezes me sinto cheio de mundo com toda força com todo ânimo de criar tudo, de embalar tudo, embolar, mastigar, degustar, engolir. Como se eu quisesse comer numa padaria inteira. Os doces, as guloseimas, tudo que tem açúcar! Sentir o gosto dos passos descalços. De cada canto e quarto, de cada lágrima no rosto. De sal. De nós em gargantas. Gostos. De sabões (ah, eu gosto de lamber espuma de sabão). De chão gelado. De suor. De açúcar. De massa de modelar. O gosto do Palco. O cheiro do Palco. O rumo do ralo. O vão da praça. Sons de pássaros. De tomadas dando choque. Som de corda bleim bleim bleim. Velhos. Rugas. Ver rugas. O futuro evitável. Ver cravos nos rostos. Páginas velhas de livros. Frases escritas em fundo de caderno velho, em livros. Cheiro de livro, de revista (eu também lambo revistas e livros com a pontinha da língua). É algo na barriga, no peito, na garganta e na espinha. A sensação de ler algo que toca, que choca. Inexplicável.Eu tenho força dentro de mim e ela se perde, se esvai. Depois quero somente o frio, a cama e o sono. Lamento, não tenho sonhos.
quarta-feira, 25 de junho de 2008
sobre ser curinga
É preciso ser forte nesse mundo,
resistir aos cintilantes, a todas essas coisas brilhantes
que nos tiram a capacidade de pensar com clareza
e, ainda assim, não parecer um louco.
terça-feira, 24 de junho de 2008
O tempo e o transcendente
"Ele parou num determinado ponto, olhou para todas aquelas ruínas e disse:
-- Na praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma fora, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. Aqui nesta praça se escreveu a história do mundo; aqui os acontecimentos foram gravados na memória das pessoas, e depois novamente apagados. Na Terra, a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia nós somos modelados... com o mesmo e frágil material de nosso antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob nossos pés. Não temos sequer areia sob os pés. Nós somos areia. (...) O tempo não passa, Hans-Thomas, e não é um relógio. Nós passamos e são os nossos relógios que fazem tique-taque. O tempo vai devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói monumentos e engole gerações atrás de gerações. Por isso é que falamos dos 'dentes da engrenagem do tempo': o tempo mastiga, mastiga... e somos nós que estamos entre seus dentes.
(...) Andamos pela Terra como se isso fosse a coisa mais evidente do mundo. Você viu como as pessoas se agitam feito formigas lá na Acrópole? Mas toda aquela agitação vai desaparecer. Vai desaparecer e ser substituída por outra, pois sempre há outras pessoas prontas, à espera. Sempre surgem novas idéias. Nenhum tema se repete, nenhuma composição é escrita duas vezes... Nada é tão complicado e tão precioso quanto o ser humano, meu filho. Apesar disso, somos tratados como futilidades baratas.
Abracadabra e... pronto! Desaparecemos.
Se nós vivêssemos em outro século dividiríamos nossas vidas com outras pessoas. Nesse momento só podemos cumprimentar, sorrir e desejar bom-dia para milhares de nossos contemporâneos: 'Ei você! Que coisa fantástica podermos compartilhar do mesmo tempo!'
Sentou-se num bloco de mármore e respirou fundo. Só então entendi que ele devia ter se preparado durante muito tempo para esse discurso que faria aqui na antiga praça do mercado de Atenas. E na verdade não falava comigo, ou pelo menos não só comigo. Conversava com os grandes filósofos gregos. O discurso de meu pai se dirigia a um passado remoto. Perguntei:
-- Você acredita que haja alguma coisa que não possa ser levada como a areia do castelo que a água do mar destrói?
-- Aqui - disse ele, e apontou para sua cabeça. - Aqui dentro tem alguma coisa que não pode ser levada. O pensamento não pode ser levado, Hans-Thomas."
O Dia do Curinga - Jostein Gaarder
-- Na praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma fora, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. Aqui nesta praça se escreveu a história do mundo; aqui os acontecimentos foram gravados na memória das pessoas, e depois novamente apagados. Na Terra, a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia nós somos modelados... com o mesmo e frágil material de nosso antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e se incorpora a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob nossos pés. Não temos sequer areia sob os pés. Nós somos areia. (...) O tempo não passa, Hans-Thomas, e não é um relógio. Nós passamos e são os nossos relógios que fazem tique-taque. O tempo vai devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói monumentos e engole gerações atrás de gerações. Por isso é que falamos dos 'dentes da engrenagem do tempo': o tempo mastiga, mastiga... e somos nós que estamos entre seus dentes.
(...) Andamos pela Terra como se isso fosse a coisa mais evidente do mundo. Você viu como as pessoas se agitam feito formigas lá na Acrópole? Mas toda aquela agitação vai desaparecer. Vai desaparecer e ser substituída por outra, pois sempre há outras pessoas prontas, à espera. Sempre surgem novas idéias. Nenhum tema se repete, nenhuma composição é escrita duas vezes... Nada é tão complicado e tão precioso quanto o ser humano, meu filho. Apesar disso, somos tratados como futilidades baratas.
Abracadabra e... pronto! Desaparecemos.
Se nós vivêssemos em outro século dividiríamos nossas vidas com outras pessoas. Nesse momento só podemos cumprimentar, sorrir e desejar bom-dia para milhares de nossos contemporâneos: 'Ei você! Que coisa fantástica podermos compartilhar do mesmo tempo!'
Sentou-se num bloco de mármore e respirou fundo. Só então entendi que ele devia ter se preparado durante muito tempo para esse discurso que faria aqui na antiga praça do mercado de Atenas. E na verdade não falava comigo, ou pelo menos não só comigo. Conversava com os grandes filósofos gregos. O discurso de meu pai se dirigia a um passado remoto. Perguntei:
-- Você acredita que haja alguma coisa que não possa ser levada como a areia do castelo que a água do mar destrói?
-- Aqui - disse ele, e apontou para sua cabeça. - Aqui dentro tem alguma coisa que não pode ser levada. O pensamento não pode ser levado, Hans-Thomas."
O Dia do Curinga - Jostein Gaarder
sábado, 21 de junho de 2008
Fera ferida
EU
ELA
Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída
Mas saí ferido
Sufocando meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido
Animal arisco
Domesticado esquece o risco
Me deixei enganar
E até me levar por você
Eu sei quanta tristeza eu tive
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor
Eu andei demais
Não olhei pra trás
Era solto em meus passos
Bicho livre, sem rumo, sem laços
Me senti sozinho
Tropeçando em meu caminho
À procura de abrigo
Uma ajuda, um lugar, um amigo
Animal ferido
Por instinto decidido
Os meus rastros desfiz
Tentativa infeliz de esquecer
Eu sei que flores existiram
Mas que não resistiram
A vendavais constantes
Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração
ELA
Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e os sonhos
Rasgados na minha saída
Mas saí ferido
Sufocando meu gemido
Fui o alvo perfeito
Muitas vezes no peito atingido
Animal arisco
Domesticado esquece o risco
Me deixei enganar
E até me levar por você
Eu sei quanta tristeza eu tive
Mas mesmo assim se vive
Morrendo aos poucos por amor
Eu andei demais
Não olhei pra trás
Era solto em meus passos
Bicho livre, sem rumo, sem laços
Me senti sozinho
Tropeçando em meu caminho
À procura de abrigo
Uma ajuda, um lugar, um amigo
Animal ferido
Por instinto decidido
Os meus rastros desfiz
Tentativa infeliz de esquecer
Eu sei que flores existiram
Mas que não resistiram
A vendavais constantes
Não vou mudar
Esse caso não tem solução
Sou fera ferida
No corpo, na alma e no coração
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Os velhos amores
Eu sou apaixonado por Caetano
Eu sou apaixonado por Gil
Eu sou apaixonado por Bethânia
Eu sou apaixonado por Chico
Não que eu compartilhe de todas as idéias deles. Não mesmo. Nem gosto de todas as suas músicas.
Mas estiveram muito presentes desde meus 17 anos, 2005. Acho que foi muito por causa da professora de literatura (Jerúzia - ou Jerúsia - ou Gerúz..sia?? Nunca soube). Ela meio que despertou em mim o gosto pela Tropicália. Eu sei que passei a ouvir Caetano. Loquei um dvd - noites do norte. Eu ainda era meio travado com ele por causa da visão religiosa fechada de minha família - graças a Deus eu moro só com minha mãe e ela nunca me freou quanto a isso. Muito pelo contrário, hoje ela gosta também deles todos -, mas, ao longo do ano seguinte, fui ouvindo e gostando mais. Hoje, tenho o Noites do Norte, o Cê, o Circuladô.
Lembro que gostava mais de Gil, pq caetano me parecia muito faniquiteiro. Mas depois comecei a tentar entender caetano. A chave é a seguinte: só posso provar o meu pensamento, não posso provar a minha existência nem a dos outros, então sou eu só e meu pensamento. Essa é chave começar uma conversa com Caetano. e depois..
Enfim, não quero tratar aqui das belezas de cada um deles, nem de sua importância política, estética, musical. Isso daria um livro e já tem muitos por aí lançados.
Eu só quero dizer que preciso de algo novo. Não, eu não vou largar deles. Mas eu quero algo novo pra ouvir, novos pensamentos pra pensar.
é sério.
Gente, meu pai anda ouvindo Maroon Five. Ele chega pra mim com cds de "poprock metido a besta" e me empresta pensando que eu gosto. Eu detesto. Mas eu deveria gostar, né... O negócio é que eu não estou acompanhando o que tá aí agora - só los hermanos, de quem gosto muito, mas que deram uma pausa -. Enquanto meu pai anda descobrindo The Cranberries, eu busco "novas" músicas de Cartola. é brincadeira?
Não fui fã de Legião como todo adolescente um dia na vida foi. Gosto, mas só. Nunca fui louco por capital inicial, nem barão vermelho. Gostei de paralamas, de engenheiros, de cazuza. Mas nada como aqueles quatro do início.
Não que eu queira gostar de Lenny Kravitz. Nem de longe. Mas, po, tá demais. O problema é o seguinte: nada me agrada. Não sei se é a minha irritação crônica ou a falta de coisa legal mesmo. Ou será que é pq eu busco nos novos de agora um pouco de bethânia e não acho?
Hoje mesmo fui ao iguatemi pra ver a juventude passar. Aquelas meninas bonitinhas de 16 anos com sainha rodada e meião. Aqueles meninos loiros hollywoodianos com camisa colada nos músculos, lindos, mas feios. Acabei comprando um disco de Bethânia de 1965 da época em que ela fazia o opinião. hehehhehehe. Bom, vou lá ouvir...
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Ótica Futura
que furtem dores e encurtem cores como sóis de verões
então, livros, videos, discos à manhceia,
a vida inteira pela frente
e deixo que surjam, que fluam, que parem.
domingo, 13 de abril de 2008
Eu quero é cantar
Chatos
antropológicos, sociológicos, axiológicos,
ontológicos, teológicos, criminológicos,
frenológicos, genealógicos, metodológicos,
tipológicos, filológicos, patológicos,
biológicos, fisiológicos, ortodontológicos,
filosofológicos, neológicos,
saco, pra tanta logia, vão no cú da jia.
Eu quero é cantar
antropológicos, sociológicos, axiológicos,
ontológicos, teológicos, criminológicos,
frenológicos, genealógicos, metodológicos,
tipológicos, filológicos, patológicos,
biológicos, fisiológicos, ortodontológicos,
filosofológicos, neológicos,
saco, pra tanta logia, vão no cú da jia.
Eu quero é cantar
domingo, 2 de março de 2008
à noite e à chuva que cai lá fora
Da tristeza se fala sempre. Sempre que se fala de alegria.
São as duas faces de uma mesma moeda, cujo nome é poesia.
Por trás da alegria está a tristeza. Vice-versa.
Todo poeta é triste-alegre pra início de conversa.
Vê o samba? Não há coisa mais vistosa e controversa
A tristeza, desde que o samba é samba, é senhora.
São as duas faces de uma mesma moeda, cujo nome é poesia.
Por trás da alegria está a tristeza. Vice-versa.
Todo poeta é triste-alegre pra início de conversa.
Vê o samba? Não há coisa mais vistosa e controversa
A tristeza, desde que o samba é samba, é senhora.
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